Na década de 1960, José Mujica entrou para o movimento guerrilheiro Tupamaros. Foi preso, torturado e, anos depois, acabaria se tornando presidente do Uruguai, cargo que ocupou entre 2010 e 2015. Ele costumava se definir como um estoico, e suas reflexões, sempre em algum ponto entre a política e a filosofia, funcionavam como um posicionamento contra o excesso do capitalismo.
Ao mesmo tempo, suas declarações eram também uma celebração da vida. Ou melhor... da boa vida. Como ele próprio disse em uma entrevista à BBC Mundo, "tudo me aconteceu", mas "tenho que gritar 'obrigado' à vida".
Uma das reflexões mais marcantes que Mujica compartilhou surgiu em uma entrevista para o documentário 'Human', dirigido por Yann Arthus-Bertrand. Nela, ele deixou uma recomendação: "Perca tempo com coisas que não geram dinheiro, mas que lhe dão vontade de viver". Ao falar sobre consumismo, Mujica entrega uma lição de vida que faz qualquer pessoa repensar suas prioridades.
Ao refletir sobre o modo como organizamos nossas vidas, ele aponta para um problema bastante comum: passamos tempo demais trabalhando para comprar cada vez mais coisas, quando poderíamos usar esse mesmo tempo para cultivar o que realmente nos faz felizes.
E, segundo a Universidade de Harvard e seu famoso Estudo sobre o Desenvolvimento Adulto, o que mais contribui para a felicidade ao longo da vida são os relacionamentos. No meio dessa corrida por consumo, muitas vezes esquecemos que o tempo é o bem mais precioso que temos. E, curiosamente, é o único que não custa dinheiro. Mesmo assim, como lembrava Sêneca, agimos como se ele fosse infinito.
Para Mujica, o próprio funcionamento do capitalismo nos faz perder essa perspectiva. Ele explica que, na realidade, não compramos coisas com dinheiro, mas com o tempo da nossa própria vida, já que é trabalhando que conseguimos esse dinheiro. Em um dos trechos do documentário, ele explica sua ideia:
"Criamos uma montanha de consumo supérfluo, e temos que jogar coisas fora e viver comprando e jogando coisas fora. E o que estamos gastando é o nosso tempo de vida, porque quando eu compro algo, ou você compra, você não compra com dinheiro, você compra com o tempo de vida que teve que gastar para ganhar esse dinheiro. Mas com esta diferença: a única coisa que você não pode comprar é a vida. A vida é gasta . E é miserável passar a vida perdendo a sua liberdade".
Também no documentário, Mujica resume sua visão de mundo: "Ou você consegue ser feliz com pouco e viajar leve, ou não conquista nada". Ele explica que "não é uma desculpa para a pobreza, mas sim uma desculpa para a simplicidade".
Essa simplicidade, segundo ele, nos permite precisar de menos coisas materiais e, consequentemente, ter mais tempo livre para dedicar ao que realmente importa - exatamente aquelas coisas que, como José Mujica diz, nos dão vontade de viver.
Apesar da trajetória marcada por prisão, perseguição e dificuldades, Mujica sempre demonstrou uma enorme gratidão pela vida. Talvez esse seja justamente o segredo por trás da serenidade que ele transmitia: entender que só temos uma vida e que ela não deveria ser consumida apenas por reuniões, horas extras e pela busca constante por mais bens materiais, como o celular mais novo ou um carro mais caro.
No fim das contas, talvez o verdadeiro equilíbrio esteja em trabalhar para viver, e não em viver apenas para trabalhar.